#BlackLivesMatter: História do Movimento

«Racism isn’t getting worse, is getting filmed.»

George Floyd era um homem como qualquer outro. Tinha 46 anos, duas filhas e uma história que estava longe de acabar. Mas, além de tudo isso, George Floyd também era negro. Tão negro como Breonna Taylor, como Ahmaud Arbery e como muitos outros que, tal como Floyd, foram assassinados a sangue frio por uma sociedade que se esqueceu que, além de negros, eles também eram seres humanos.

George Floyd era um homem com uma história. Hoje não passa de mais uma história do que um dia foi um homem.

Uma história que inspirou um movimento.

Um movimento que inspirou uma revolução.

Legados de um passado escravista

A Black Lives Matter é mais que uma hashtag que se levanta de cada vez que um negro é assassinado, mas, para compreender o conceito e o intuito da Black Lives Matter, é preciso primeiro compreender o que levou à sua criação.

Os Estados Unidos da América são, incontestavelmente, um país que traçou o seu percurso na História sobre os escombros da escravatura, tão antiga quanto a própria nação, marcada pela chegada dos primeiros escravizados, em 1526. Foi apenas em 1865 que foi ratificada a 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que aboliu oficialmente a escravatura no país, à qual tão (in)coerentemente se seguiram as leis de Jim Crow, que reforçaram a hierarquia racial e contornaram as proteções implementadas após a Guerra Civil, com leis profundamente discriminatórias que negavam às comunidades negras os seus direitos mais básicos. Este longo período de segregação foi contestado pelo Movimento pelos Direitos Civis, durante décadas de luta organizada, campanhas e protestos, que viram frutos em 1968 com a assinatura do Ato dos Direitos Civis.

«If a white man wants to lynch me, that’s his problem. If he’s got the power to lynch me, that’s my problem. Racism is not a question of attitude; it’s a question of power»

Não é de admirar que apenas 52 anos depois ainda se encontrem resíduos patentes deste sistema que durante séculos perpetuou a inferiorização da população negra. Estes resíduos refletem-se nas disparidades existentes no acesso à educação, emprego, alojamento, cuidados de saúde, poder político, riqueza, justiça criminal, entre outros.

São uma das formas de racismo expressas na prática de instituições políticas e sociais, aquilo a que se chama racismo institucional.

#BlackLivesMatter

A 26 de fevereiro de 2012, Trayvon Martin, um jovem afro-americano de 17 anos, foi assassinado por George Zimmerman, membro da vigília comunitária de um condomínio fechado onde vivia a madrasta de Martin.

Nessa mesma tarde, Martin dirigia-se sozinho a uma loja de conveniência quando Zimmerman o avistou e o denunciou à polícia local, alegando que Martin tinha um ar suspeito. Após ser encorajado pela polícia para não agir, Zimmerman iniciou um confronto físico com Martin, no qual acabou por o balear no peito, causando a sua morte imediata. 

Inicialmente, Zimmerman alegou auto-defesa e não chegou a sofrer quaisquer acusações, mas o caso ganhou tanta visibilidade que não houve outra escolha que não levá-lo a tribunal.

Em julho de 2013, Zimmerman foi absolvido de todas as acusações. O caso gerou furor nos media e levou à criação da hashtag #BlackLivesMatter, no Twitter, com mais de 519 mil tweets e menções.

O movimento ganhou destaque internacional em 2014, com uma onda de protestos que se seguiu ao homicídio de dois homens afro-americanos.

Eric Garner, de 44 anos, foi assassinado em via pública pelo agente Daniel Palantaleo, que o imobilizou com uma técnica de estrangulamento durante quase 20 segundos, e ainda que estas fossem proibidas pelo estado de Nova Iorque, Palantaleo não chegou a ser indiciado pelo crime.

Michael Brown, um jovem de 18 anos foi baleado seis vezes pelo agente Darren Wilson, que após alegar auto-defesa, foi absolvido pelo Tribunal. Uma das testemunhas, que se encontrava com Michael Brown afirma que, antes do tiroteio, Michael levantou as mãos e pediu que o agente não disparasse. 

Isto inspirou o famoso slogan ”Hands Up, Don’t Shoot” que até hoje se encontra nos protestos do Black Lives Matter e que teve destaque naquela que foi a tomada de ação mais conhecida e impactante do movimento.

The Ferguson Unrest

A primeira manifestação física do movimento Black Lives Matter ocorreu em agosto de 2014 com o The Ferguson Unrest, uma vaga de protestos que teve início no dia a seguir à morte de Michael Brown, na cidade de Ferguson, no Missouri. O ambiente foi semelhante ao que se vive atualmente nos protestos pelo homicídio de George Floyd – vandalismo, fogo posto e outros tipos de violência. 

A agitação, que durou até agosto de 2015, suscitou um debate aceso que procurou analisar a relação entre os agentes de força policial e a população afro-americana e de que forma essa relação integra um dos mecanismos do racismo institucional do país.

Nos dias atuais, a Black Lives Matter exerce um papel fundamental de intervenção política e ideológica numa sociedade onde negros são sistemática e intencionalmente vistos como um alvo a abater. Além da hashtag, o conceito foi expandido para uma plataforma online que reúne uma série de princípios e objetivos partilhados internacionalmente pelos ativistas.

Sugestões Literárias

Como mulher negra, identifico-me com estes casos de uma forma muito pessoal, mas esta é uma luta que nos pertence a todos. Não é fácil desmantelar um sistema tão bem estruturado que compõe os alicerces da sociedade como a conhecemos, mas enquanto não houver justiça, não poderá haver paz.

Nos Estados Unidos, as pessoas saem à rua e fazem-se ouvir, de tal forma que o mundo inteiro começou a prestar atenção.

Mas ainda não é suficiente, e nunca o será enquanto pessoas como George Lloyd, João Pedro e Cláudia Simões continuarem a ser vítimas de violência policial. 

Existem muitas formas de participar nesta luta e a mais fundamental é a busca por informação. A desconstrução dos dogmas que nos são impostos desde o berço é um percurso longo e moroso, mas é também uma responsabilidade que carregamos como membros de uma sociedade profundamente racista.

É por isso que deixo aqui a minha contribuição, não só como blogger e bookstagrammer, mas essencialmente como ser humana, de alguns dos títulos de que tomei conhecimento durante o meu próprio processo de desconstrução.

Não Ficção:

  • Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Quotidiano de Grada Kilomba
  • Racismo no País dos Brancos Costumes de Joana Gorjão Henriques
  • Esse Cabelo de Djamilia Pereira de Almeida
  • A Coisa à Volta do Teu Pescoço de Chimamanda Adichie
  • Não Serei Eu Mulher? As Mulheres Negras e o Feminismo de bell hooks
  • Racismo Recreativo de Adilson Moreira

Ficção:

  • Dear Martin de Nic Stone
  • O Ódio que Semeias de Angie Thomas
  • On The Come Up de Angie Thomas
  • All American Boys de Jason Reynolds e Brendan Kiely
  • How It Went Down de Kekla Magoon
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