Entrevista com Marta Morgado

Marta Morgado é uma jovem portuguesa de 21 anos que viu o seu sonho realizado ao receber uma proposta de publicação para a sua história, Evanescente (podem ler a minha opinião aqui). Nesta entrevista, ficamos a conhecer um pouco mais sobre a sua vida e o processo de criação do livro, que podem encontrar à venda no site da editora Cordel D’Prata.

1. Tiraste um curso de Línguas e Literaturas Europeias e, paralelamente a isso, também tens um blog, portanto a escrita, de uma forma ou outra, sempre fez parte da tua vida. O que fazes quando não estás a escrever?

«Muito honestamente, ou penso em histórias que acabo por não escrever, ou estou a tentar criar coisas que queira expor ao mundo. Há muita coisa que não passa cá para fora, como é óbvio, mas a maior parte, é exposta. Além disso, adoro entreter-me com música, literatura, estudar marketing digital, fotografia, aprender mil e uma coisas e ser inspirada por mil e outras coisas.»

2. Evanescente é uma história que tem como cenário um ambiente juvenil e, como tal, tem uma grande variedade de personagens. Se tivesses que ficar presa numa ilha deserta com uma delas, quem escolherias e porquê?

«Estou a rir demasiado. Adoro as tuas perguntas!
Então, nisto tenho de escolher o Brian só porque eu acho que com a Emma… íamos ser um pouquito parecidas e bater muito com a cabeça uma na outra. O Brian acho que seria o género de rapaz que me protegeria dos insectos e faria uma cabana mais ou menos habitável. Ainda por cima ele tem força e assim… Acho que me ajudaria a sobreviver. E se acabasse por morrer, ao menos tinha um jeitoso ao meu lado!
(Trair o namorado com personagens fictícias, porque não?

3. Sei que começaste no Wattpad e que ganhaste uma certa fama com as histórias que lá publicaste. Sentes que o facto de já teres essa rede de leitores te pressionou, de alguma forma, a escrever aquilo que era esperado ou “o que vendia mais”, ou sempre te cingiste à tua própria criatividade, independentemente de como os teus leitores pudessem reagir?

«Algo de que me posso orgulhar é dizer que segui a minha própria criatividade. Eu comecei a ganhar “leitores” um pouco mais tarde do que as outras pessoas e então permitiu-me que eu tivesse o poder de definir a história e não quem lia. Eu podia ter escrito várias cenas de sexo ou ter escrito várias cenas em que as personagens eram um pouco irracionais do género ou criavam drama em cada página. No entanto, acho que construí bem as personagens no sentido em que elas não são perfeitas, são contraditórias, mas não no sentido infantil, e têm camadas e camadas de personalidade e histórias que as fizeram ser quem são. É claro que a opinião dos leitores importa, claro que sim! Ainda assim, queria criar algo que eu também gostasse de ler, algo que conseguisse ajudar alguém, de alguma forma.»

4. Evanescente aborda alguns temas sensíveis, como bullying, depressão e auto-mutilação. Que mensagem tentaste transmitir aos teus leitores relativamente a esses tópicos? Houve alguma pesquisa ou investigação prévia? De que forma te preparaste para enquadrar essas temáticas na tua escrita?

«Eu quis tornar a história o mais real possível. São assuntos que acontecem e são tornados tabu ou até que banalizam e ignoram porque “isso são crianças a ser crianças”. Eu queria que os leitores que passaram por essas questões não se sentissem sozinhos, de todo, e queria que quem nunca passou por isso (felizmente) que entendesse o que é estar do outro lado. Não são mimimis ou chamadas de atenção infantis. São situações sérias, problemas que deviam ser falados nas escolas e discutidos no âmbito familiar.
A minha pesquisa prévia foi aquilo que passei e aquilo que vi os outros passar. Eu tinha pessoas ao meu lado, mas sentia-me sozinha. Não conseguia confiar em ninguém com os meus pensamentos, tinha medo de falar ou de levantar a mão, era tímida, pensava que toda gente me odiava mesmo que não me conhecessem, e alguns anos depois é que percebi o que era depressão e que sofria de bullying. Na altura eu não sabia aquilo por que estava a passar porque ninguém falava sobre isso. Eu não contei aos meus pais porque achava que era uma coisa normal, já que acontecia aos outros miúdos. É algo que deveria ser ensinado nas escolas e discutido em casa para que as crianças percebam que não está correto atirarem os outros abaixo, não é normal sentirem-se deprimidos todo o tempo e não é, de todo, correcto castigarem-se por errar. É algo que defendo imenso porque sei que se sentem aliens ou sozinhos e ninguém devia sentir-se assim.»

5. Publicaste com a Cordel D’Prata, uma editora generalista que aposta na publicação de novos autores portugueses. Foi a tua primeira escolha? O que te fez optar por essa editora?

«Eu não sabia (e ainda não sei bem) este mundo de edição e editoras. Eu falei com um professor universitário que tinha publicado o seu próprio livro e ele referiu que eu poderia mandar um manuscrito para as editoras que se encaixassem com o género do meu livro e assim o fiz. Inclusive, participei num passatempo que a Cordel D’Prata estava a fazer. Recebi muitos nãos. Dos 30 e-mail’s que enviei (mais coisa, menos coisa) recebi dois sins. O segundo e-mail foi a dizer que não ganhei o concurso, mas gostaram do manuscrito e queriam fazer-me uma proposta, e assim nasceu o livro físico Evanescente. Na altura em que aceitei, era uma editora bem pequena, eu tinha a percepção disso, pelo menos. Agora está enorme e com vários autores e dá-me uma grande alegria ver que tantos escritores estão a nascer no mundo da literatura contemporânea. Dá-me esperança, honestamente.»

6. É facto que, aqui em Portugal, mais difícil que publicar um livro é vendê-lo. Que tipo de estratégias de marketing te têm sido úteis na publicitação de Evanescente? Algum tipo de recurso ou plataforma que recomendes a outros jovens autores?

«Como eu disse, sou muito nova disto de editoras e vender. Eu ouço a palavra vender e faz-me comichão porque lidar com vendas e dinheiro é algo muito esquisito para mim, entendes?
Eu há cerca de 3 ou 4 meses comecei a entrar em contacto com outros autores portugueses e conversar, se tinham dicas para me dar sobre exactamente isso. Felizmente, foram todos uns queridos e responderam-me! O *gatilho de prova social*, ou seja, mostrar o feedback de outras pessoas é muito importante e não tinha noção disso. Isso gera, também, o passa-a-palavra o que é ainda melhor. Eu decidi ofertar dois livros – fazer uma parceria – para pessoas específicas que eu notasse que tinham bons projectos e uma boa interacção/relação com os seus seguidores. Isto porque quando vêem falar contigo “olha leio o teu livro em troca de review”‘, não pensam que é dinheiro que nós estamos a dar e é trabalho que estamos a dar de graça. Além disso, nenhum projecto tem de te ajudar de alguma forma, entendes? Porque uma parceria é uma coisa mútua e é preciso estudar bem isso, não serve só de ganho para uma pessoa e a quantidade de gente que me veio pedir um livro gratuito de forma mesmo brusca e sem contexto… enfim, torna-se um desrespeito a mim e à minha arte.»

7. Agora que, depois de tanto trabalho e tanta luta, já tens um livro publicado, qual é o teu próximo passo?

«O meu próximo passo, e vai ser sempre o meu próximo passo, é continuar a criar. E isto é muito banal, eu sei e peço desculpa por isso. A questão é que eu nunca tenho só um projecto na minha mente, eu tenho vários, tanto a nível pessoal como a nível profissional. Se me pagassem por cada ideia que eu tenho eu já estava rica a esta altura. Tentando desmitificar um bocadinho: vou continuar a escrever livros, vou continuar a escrever para o blog, vou continuar com o podcast, estava a pensar em criar uma newsletter e quem sabe se um dia não passo para o formato de vídeo? (Quando tiver coragem porque já passar para podcast foi um esforço de ano e meio!). Enfim. Espero continuar a fazer o que gosto e, talvez, inspirar outras pessoas a fazerem o que gostam!»

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