Opinião | Memórias da Plantação, Episódios de Racismo Quotidiano

Grada Kilomba
Editora Orfeu Negro

Avaliação: ★★★★★

SINOPSE

MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO é uma compilação de episódios quotidianos de racismo, escritos sob a forma de pequenas histórias psicanalíticas. Das políticas de espaço e exclusão às políticas do corpo e do cabelo, passando pelos insultos raciais, Grada Kilomba desmonta, de modo acutilante, a normalidade do racismo, expondo a violência e o trauma de se ser colocada/o como Outra/o.

Publicado originalmente em inglês, em 2008, MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO tornou-se uma importante contribuição para o discurso académico internacional. Obra interdisciplinar, que combina teoria pós-colonial, estudos da branquitude, psicanálise, estudos de género, feminismo negro e narrativa poética, esta é uma reflexão essencial e inovadora para as práticas descoloniais.

Uma das minhas resoluções para 2020 é começar a ler mais obras de não-ficção, preferencialmente que abordem a temática do racismo. Eis que, no início do mês, deparei com este livro na montra da Bertrand do Chiado e não resisti  a encomendá-lo. Grada Kilomba, nascida em Lisboa, com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe e atualmente residente em Berlim, faz uma abordagem científica do racismo e esmiuça os seus vários conceitos, equilibrando-os com algumas narrativas contadas em 1ª pessoa.

«(…) enquanto eu vinha de um lugar de negação, ou até mesmo de glorificação da história colonial, estava agora num outro lugar onde a história provocava culpa ou até mesmo vergonha. Este percurso de consciencialização colectiva, que começa com a negação – culpa – vergonha –reconhecimento – reparação, não é de forma alguma um percurso moral, mas um percurso de responsabilização. A responsabilidade de criar novas configurações de poder e de conhecimento.»

As questões abordadas são várias, desde a terminologia correta a utilizar e a carga preconceituosa que carregam certas palavras do quotidiano, a observações muito pertinentes sobre o cruzamento entre ”género” e ”raça”. A autora combina o seu discurso com o de outros intelectuais que dedicaram grande parte da sua vida a estudar o racismo e os seus efeitos na sociedade pós-colonial, pelo que me foi possível anotar uma data de autores e referências que tenciono consultar mais tarde. Pessoalmente senti-me elucidada em muitos aspectos. Como mulher negra, sou exposta a várias situações no dia-a-dia que, até hoje, nunca tinha reconhecido como racistas, mas que de facto, o são. Foi uma autêntica jornada de aprendizagem e reflexão.

«Ao conceptualizar o género como único ponto de partida da opressão, as teorias feministas ignoram o facto de as mulheres negras não serem apenas oprimidas pelos homens – brancos e negros – e pelas formas institucionalizadas de sexismo, mas também pelo racismo – dos homens brancos e das mulheres brancas – e pelas suas formas institucionalizadas.»

Este livro é um excelente ponto de partida para quem quer aprender mais sobre racismo e feminismo. A linguagem é acessível e as temáticas abrangentes. A autora disponibiliza-nos uma série de dados e referências úteis sobre uma discussão que em Portugal ainda se encontra em fase embrionária. O racismo não é um mito urbano, tal como não é algo que acontece ”apenas lá fora”. É essencial que seja feito um esforço para colocar o ego de lado e começar a ver o mundo como ele realmente é, fora da bolha de privilégio.

Só assim será possível começar aquilo que será um longo processo de desconstrução e reparação da violência racial que faz parte da história do nosso país.

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