Opinião | Filhos de Sangue e Osso

Tomi Adeyemi
Editora Planeta Manuscrito

Capa: ★★★★★
Enredo: ★★★★☆
Escrita: ★★★★☆
Personagens: ★★★★★
Avaliação Final: ★★★★☆

SINOPSE

«Eles mataram a minha mãe.
Levaram a nossa magia.
Tentaram enterrar-nos.
E, agora, nós levantamo-nos.

Zélie Adebola lembra-se do tempo em que a magia fazia vibrar o solo de Orixá. Os Incineradores ateavam as chamas, os Senhores das Marés chamavam as ondas e a mãe Ceifeira de Zélie invocava um exército de almas.
Mas tudo mudou na noite em que a magia desapareceu. Sob as ordens de um rei implacável, os Maji foram perseguidos e assassinados, deixando Zélie órfã de mãe e o seu povo desprovido de esperança.

Agora, Zélie tem apenas uma oportunidade de trazer a magia de volta e atacar a monarquia. Com a ajuda de uma princesa fugida, ela terá de ser mais forte e mais astuciosa do que o príncipe herdeiro, que jurou erradicar a magia para sempre.

O perigo espreita em Orixá, onde leopardaires das neves andam à caça e espíritos vingativos rondam as águas. A grande ameaça, contudo, talvez seja a própria Zélie, que ainda não aprendeu a dominar os novos poderes, nem a paixão que começou a sentir pelo seu maior adversário.»

Li o Filhos de Sangue e Osso pela primeira vez em 2018, o ano em que foi lançado em Portugal, mas depois de escrever o post sobre Afrofuturismo (podem consultá-lo aqui), senti-me inspirada para o ler novamente. É uma obra de fantasia que aborda elementos da ancestralidade africana, mais especificamente da religião iorubá, da Nigéria, e os seus orixás.

«Tzain pressiona a testa com os punhos, como se quisesse esmagar o crânio. Quer acreditar na ideia de que cumprir as regras da monarquia garantirá a nossa segurança, mas nada poderá proteger-nos se essas regras estiverem enraizadas no ódio.»

O enredo acompanha a jornada de Zélie que, juntamente com o seu irmão Tzain e a princesa Amari, tenta restaurar a magia em Orixá e derrubar o regime opressor do rei Saran, tudo isto enquanto são perseguidos pelo príncipe Inan. A protagonista, Zélie, é uma jovem decidida e obstinada, dotada de uma grande força de vontade. Foi uma heroína do início ao fim, com uma evolução estrondosa ao longo dos acontecimentos, como aliás, tiveram todas, e eu repito, todas as personagens. Todas elas tinham uma história e uma motivação que fazia delas quem eram e esse foi para mim o ponto mais alto deste livro. A minha favorita foi Amari, que ao longo da história se debateu com os seus traumas e questões morais e foi crescendo como pessoa, princesa e mulher.

Apesar da incrível construção de personagens, os romances deixaram muito a desejar. Havia dois arcos românticos principais e nenhum deles me conseguiu convencer. Não havia química e, a certo ponto, tornou-se algo forçado, como algo que precisava de acontecer para a história avançar. Houve duas personagens cuja relação, apesar de não ser de cariz romântico, se elevou a todas as outras — Zélie e Amari. A química entre elas era latente em cada cena e, sinceramente, ainda não perdi as esperanças de que elas acabem juntas. Vou ter de esperar para ler o segundo livro para descobrir.

«— Nem sempre é nítido, mas quando os teus pensamentos e as tuas emoções são intensos, eu também os sinto.
— E isso acontece-te com todas as pessoas?
Ele abana a cabeça.
— Não com a mesma intensidade. Com os outros, é como se tivesse sido apanhado no meio da chuva. Tu és um tsunami.»

O Universo é completo e rico em detalhes. Há uma presença muito forte de elementos da religião ioruba e muitas menções às divindades orixás. As descrições transportam o leitor a um cenário mergulhado em componentes características de uma África tradicional, com os seus dashikis, aheres e magia ancestral. O enredo, no entanto, por se aprofundar tanto nesta construção de Universo, acabou por adquirir um ritmo lento e demorado, dando-me a sensação de, por vezes, estar «parada no tempo». Para compensar, existe muita ação pelo meio. As cenas de luta são muito gráficas, o que me permitiu criar uma imagem nítida do que estava a acontecer.

«— O teu povo, os teus guardas… não são outra coisa se não assassinos, violadores e ladrões. A única marca que os distingue dos criminosos comuns é o uniforme que eles usam.»

Apesar de ser uma obra de fantasia, senti uma ligação muito forte com eventos da vida real. A sociedade descrita em Orixá foi construída em alicerces de ódio e medo. Pessoas inocentes são constantemente oprimidas, escravizadas e violentadas por quem se acha superior. E em cada um desses ataques e em cada uma dessas mortes, eu vi o nome de um jovem negro assassinado pelas mãos de um polícia.

Jovens desarmados. Jovens inocentes.

A temática do racismo está presente em cada uma das páginas deste livro. E mais que um manifesto, senti que era também um grito de revolta. Um apelo à mudança. E, no fundo, é essa a beleza da literatura. Até pode ser uma história sobre um universo mirabolante com magia e deuses ancestrais… mas a mensagem está lá.

«Parem de nos matar. Também somos humanos.»

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