Opinião | Quinze Cães

André Alexis
Editora Lua de Papel

Capa: ★★★★☆
Enredo: ★★★☆☆
Escrita: ★★★★☆
Personagens: ★★★★☆
Avaliação Final: ★★★★☆

SINOPSE

«Começa assim, com uma aposta entre dois deuses gregos, este desconcertante romance. Hermes e Apolo saem do bar, onde conversavam sobre os mortais, passam por uma clínica veterinária e dotam quinze cães de consciência e linguagem humana. Depois resta-lhes observar, a partir do Olimpo, o desenrolar do drama.
Subitamente capazes de pensamentos complexos, os cães começam a dividir-se. Alguns abraçam a novidade, como o genial Prince, que descobre em si dotes de poeta. Outros, como o temível mastim napolitano que rapidamente assume a liderança, defendem que tudo permaneça igual e que resistam à humanização.

Mas é tarde demais, a consciência já foi semeada. E os cães lutam consigo próprios e com a linguagem estranha que agora possuem – será possível continuar a latir, quando sabem que estão a produzir sons sem significado? Não será humilhante fazerem truques de circo em troca de biscoitos? Os deuses observam deleitados a desintegração do grupo e os destinos de cada um, do estóico mastim, ao filosófico Majnoun, que manterá uma bizarra relação com um casal de humanos.

Obra a todos os níveis original, Quinze Cães ilumina a beleza e os perigos da consciência, e de tudo o que nos torna humanos. Tocante por vezes, reflexiva quase sempre, recupera as tragédias gregas e transporta-as para um mundo absolutamente novo.»

Quinze Cães é uma obra que teve a sua primeira edição lançada em português, em 2015, pela Lua de Papel, uma chancela do Grupo Leya. A premissa deixou-me logo intrigada: dois deuses concedem inteligência humana a quinze cães para determinar se assim conseguem ser mais felizes que os humanos. Além de integrar o que é obviamente uma crítica à sociedade, esta história inclui cães, mitologia grega, um mapa da cidade de Toronto e muito, mas muito mais.

«Como era estranha a mudança! Um dia, enquanto ouvia uns humanos a falar com o seu animal de estimação, Majnoun sentiu uma coisa curiosa. Foi como se o sol, num instante, tivesse rompido um denso nevoeiro matinal. Compreendia o que os humanos estavam a dizer! Não percebia apenas algumas palavras – as palavras que ele próprio ouvira mil vezes. Estava convencido de que compreendia o pensamento por trás delas.»

Em pouco menos de 200 páginas, este livro concebe uma visão aprofundada do modo de agir dos cães ao adquirirem inteligência humana. Subitamente, dão por si conscientes das mais variadas questões, tais como estratos hierárquicos, linguagem e comunicação, religião, o significado da vida, além de novas perspectivas sobre o que realmente significa sobreviver. Cada uma destas questões é abordada através de personagens complexas e arcos narrativos impecavelmente construídos.

Atticus, descrito como «um imponente mastim napolitano, de bochechas generosas» é o líder da nova matilha de cães conscientes. Frick e Frack, dois irmãos labradores retrivier, são os típicos soldados, os que aplicam força bruta quando é necessário. Majnoun, um dos protagonistas, é um caniche determinado. Prince é um poeta, apaixonado pela sua nova linguagem, e Max é um rafeiro astuto que não olha a meios para sobreviver.

«— Gostaste? [do filme] — perguntou, por fim.
— Sim — respondeu Majnoun.
— Não achaste demasiado comprido? Há pessoas que o acham aborrecido.
— Não foi aborrecido — disse Majnoun —, mas foi estranho. As pessoas estavam sempre a olhar para sítios que não conseguíamos ver. Passei o tempo a pensar que ia aparecer alguma coisa. Depois, no fim, foi a morte que apareceu.»

São vários os temas abordados, mas o que achei mais interessante foi ver descritos hábitos do ser humano através de uma perspetiva mais frugal, típica do modo distante e inocente com que eram percecionados pelos cães. Além de uma história, senti que estava a ler uma tese sociológica e filosófica sobre o mundo em geral. Há muito sobre o que é viver em sociedade, como humano e como cão, o que no fundo, acaba por não ser assim tão diferente se conseguirmos encarar esta história como a metáfora que é. Além disso, aprendi muito sobre o que é ser um cão (no sentido literal da coisa) e ter instinto selvagem.

A narrativa é versátil. Existe um fio condutor, mas são vários os caminhos que este percorre até chegar à derradeira conclusão. Estava à espera que a certo ponto se tornasse confuso, havendo este malabarismo entre tantas personagens e respetivas histórias, mas em nenhum ponto me senti perdida. Foi muito fácil acompanhar cada um dos arcos sem perder o foco da grande questão do livro: afinal, será a inteligência o motivo da nossa felicidade ou o que nos impede de ser verdadeiramente felizes?

«A segunda questão tinha a ver consigo próprio e com o que significava – se é que significava alguma coisa – ser cão. O que era ele, na verdade? Qual era o seu lugar no mundo? Estaria à espera de Nira porque a espera estava na sua natureza, ou esta dedicação seria algo único e nobre? Na maior parte dos dias, sentia apenas que esperar era certo. De vez em quando, contudo, imaginava que a espera era apenas a manifestação de um instinto, algo que tinha de fazer. Este pensamento, sempre que lhe ocorria, entristecia-o, pois Nira era digna de mais do que mero instinto, já que não era sua dona, mas sim um ser que o completava, que o tornava mais do que alguma vez teria sido sem ela.»

Outro dos aspetos mais fortes foi a presença da mitologia grega. Eu sou fascinada pela temática, e apesar de não ter sido o foco, foi muito bom ver deuses como Apolo, Hermes e Zeus envolvidos nisto tudo.

Este é um daqueles livros em que, quando damos por nós, estamos tão compenetrados na história que nem nos apercebemos que já estamos à última página. E que constatação avassaladora foi chegar ao fim desta viagem. Recomendo-o vivamente. Fiquei com uma ressaca literária de que tão cedo não irei recuperar.

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